
Afinal, como nasce uma sala de aula? Bastam mesas e cadeiras diante de um quadro? Ou ela é feita de alunos, cadernos e livros didáticos? Para Yuri Sena, o que permite transformar um espaço comum em sala de aula é a disponibilidade. Para as trocas entre professor e alunos acontecerem, é preciso “estar aberto a ouvir e dialogar, corpo e mente descansados, disposição para se deparar com o novo, para a possibilidade de errar e, então, aprender”. Tudo isso ele diz encontrar em uma sala de aula pouco ortodoxa (a começar pelo endereço): na obra do Sensia Ponta Negra em Manaus, no Amazonas.
Yuri é o professor mais antigo do Escola Nota 10, programa da MRV em parceria com o Instituto Alicerce que, desde 2011, já formou mais de 7 mil colaboradores nos seus canteiros. O projeto oferece aulas gratuitas de português e matemática durante o horário de expediente, para quem não pôde cursar o ensino básico e tem interesse em continuar os estudos.
Para dar certo, tudo é pensado para facilitar o aprendizado: “Os alunos não precisam se preocupar com lápis, caneta, nada. E faz diferença as aulas serem sempre pela manhã, em horário de trabalho, para que eles estejam mais dispostos. A gente só precisa que eles estejam presentes”, afirma.
Faz quatro anos desde que Yuri entrou pela primeira vez em uma obra para lecionar. Recém-formado em filosofia, já possuía experiência com crianças e adolescentes nos estágios realizados anteriormente em escolas da capital amazonense. Contudo, aquele seria seu primeiro emprego com o título de professor e primeiro também voltado a ensinar adultos; “uma honra para mim e meu maior desafio até então”.
Yuri guarda com carinho na memória o primeiro dia no Escola Nota 10. Antes de as aulas começarem, ainda era preciso convidar os alunos para se inscreverem no programa. Ele, que se diz tímido, precisou de uma dose de coragem para apresentar o programa durante a reunião diária da equipe de construção, no canteiro de obras. “Encontrei todo mundo reunido numa praça enorme no meio do condomínio que estava sendo construído. Várias pessoas espalhadas, precisei soltar a voz, quase gritar mesmo, para que conseguissem me ouvir. Daquele grupo, 20 ou 30 pessoas se inscreveram, cerca de 15 participaram”. Com o convite, nascia ali também um professor.
De lá para cá foram muitas histórias. Mas Yuri segue se emocionando com a maneira com a qual é hoje reconhecido, até por quem não participa do programa. “Quando vou chegando, as pessoas já vêm dizendo ‘bom dia, professor!’, ‘ô professor!’”.
Segundo Yuri, conquistar a confiança entre os alunos foi algo construído pouco a pouco, como tijolo por tijolo. Em uma sala de aula, é preciso romper preconceitos para reafirmar que sempre há tempo para se reinventar. “Ainda ouço muito uma expressão de que eu discordo e não gosto. Eles dizem que ‘macaco velho não aprende mais’. E eu digo que não é assim, na vida você está sempre aprendendo, todos os dias.” E seus alunos insistem em provar que ele tem razão.

A cada semana, essa relação professor-alunos ganha novos contornos e se fortalece nos detalhes, como ele diz. Escutar é essencial. “Eu chego por volta das 6h30, pego meu café e desço para a sala de aula, ali começa a brincadeira.”
Antes de pensar nos conteúdos, ele mira em estabelecer vínculo: “os momentos mais legais são quando a gente está conversando antes das aulas. Eles me contam da vida, puxam assunto e sempre surgem alguns ‘memes’ que acabo usando nas aulas. Isso também é ferramenta de conexão e aprendizado.”
Habituados à construção civil, os estudantes costumam ser ágeis ao desenvolver raciocínios lógicos ou fazer contas mentalmente. Possuem um conhecimento valiosíssimo; aprenderam na prática a calcular a medida do cimento, o peso dos materiais e a proporção das latas de tinta. Ainda assim, quando se deparam com os números na sala de aula, representados na lousa ou nos cadernos, esse território — já tão familiar — por vezes pode parecer desconhecido.
Para trabalhar os cálculos no papel, recentemente o professor decidiu que cada aluno deveria elaborar a planta de uma casa como trabalho final do bimestre. A cada semana, eles discutiram as medidas, os números e as proporções. Planejaram a instalação hidráulica e elétrica do projeto que tinham em mãos e chegaram, enfim, a uma planta semelhante aos projetos arquitetônicos que usam no trabalho todos os dias. Para encerrar o bimestre, um convite digno do trabalho que executaram: “chamamos os engenheiros para assistir à apresentação dos trabalhos. Eles ficaram muito contentes com o que viram!”
“Quando a gente fala de olhar pro outro, a gente não olha somente para o rosto ou para a roupa que ele está vestindo, mas de fato para aquilo que ele é. Esse olhar mais profundo para o aluno é o que eu costumo ter e que a educação religiosa me ajudou a construir.”
Até o fim da própria formação escolar, Yuri não havia sequer cogitado ser professor, tinha outros planos para si. Quando concluiu a escola, estava decidido: mudou-se de Manaus para São Paulo e se juntou ao seminário. Almejava seguir a vida religiosa.
“Passei quatro anos estudando para ser padre e, nesse lugar onde eu estudava, tinha uma ação social em uma escola. Comecei a fazer faculdade de filosofia, fui dar aulas lá e foi na docência que me encontrei.”
Diante da descoberta da vocação, Yuri mudou-se de volta para Manaus, começou estágios em escolas e transferiu a graduação para outra universidade, na sua cidade natal.
Do tempo do seminário, ainda carrega as lembranças e se reconhece, a partir do aprendizado daquela época, na forma como olha hoje para os alunos. “Quando a gente fala de olhar pro outro, a gente não olha somente para o rosto ou para a roupa que ele está vestindo, mas de fato para aquilo que ele é. Se é uma pessoa que teve alguma dificuldade na vida, se passou por um por alguma situação calado, se teve uma infância difícil. Esse olhar mais profundo para o aluno é o que eu costumo ter e que a educação religiosa me ajudou a construir.”
No professor que ele se tornou, Yuri reconhece outro, que o inspirou anos antes: Joel Gracioso. Com ele, cruzou caminhos no primeiro dia do curso de filosofia. “O Joel foi o meu primeiro professor da faculdade e, de fato, o que eu sou como professor, é o que eu me espelho nele. Ele tem esse jeito de olhar para cada aluno, para cada pessoa que passa ali. Ele escuta, para, olha, conversa.”
Distante do seminário e da filosofia, nasceu outro professor, igualmente atento e cuidadoso. Em uma sala de aula pouco convencional, num ambiente com alunos com diferentes tipos de conhecimentos e repertórios, Yuri encontrou seu propósito. Ali, os sonhos não precisam ser vistos como grandiosos para terem enorme valor: “Para o futuro, desejo vê-los atingindo seus objetivos. Por mais simples que possam parecer.”