Franscisco da Silva Costa sorrindo vestido  de blusa verde, capacete laranja e óculos de  proteção

Educação: recomeço transformador

A trajetória de Francisco revela como o acesso à educação transforma histórias, fortalece vínculos e abre novos caminhos para quem decidiu recomeçar

“Ai que vontade de louvar a Deus.
Ai que vontade de louvar o Senhor.
Porque agora eu sou um homem renovado para adorar a Deus.”

Foi só aos 55 anos que Francisco da Silva Costa conseguiu escrever, no papel, o verso que por décadas existiu apenas na sua memória. A canção, um forró de louvor, nasceu como tantas outras que ele já havia criado: primeiro na cabeça, depois na repetição, na tentativa de não esquecer.

Durante anos, foi assim que compôs. Criava, decorava e guardava cada palavra. Mas, sem conseguir escrever, carregava uma dúvida constante: será que, dias depois, estava cantando exatamente aquilo que havia criado?

Fato é que a limitação de Francisco nunca foi a falta de criatividade, mas a dificuldade de registrar com segurança aquilo que compunha. Ele até escrevia, mas convivia com a dúvida sobre as palavras. “Eu ficava pensando: será que essa palavra é com C? É com N? Será que está certo?”, lembra.

A incerteza tornava o processo lento e exigia um esforço que ia além da inspiração. Para escrever um único louvor, ele podia passar quase um dia inteiro tentando acertar cada letra, retomando frases e testando possibilidades, inseguro com o resultado.

Esse cenário começou a mudar quando Francisco voltou à sala de aula. Em novembro de 2025, ele ingressou no programa Escola Nota 10, na turma do Complexo das Flores em Campinas (SP), onde trabalha como pedreiro.

O retorno aos estudos não apenas o reaproximou da leitura e da escrita, como também transformou a forma como se relaciona com aquilo que cria. Quando os versos surgem durante o trabalho, ele improvisa como pode. Anota as primeiras palavras em pedaços de papelão, guarda, leva para casa e, à noite, transforma aqueles fragmentos em uma composição completa. “Eu começo com algumas palavras e depois vêm as outras”, conta.

Francisco da Silva Costa, de uniforme verde e capacte laranja  em uma sala de aula

Francisco da Silva Costa trabalha como pedreiro na MRV e é aluno do programa Escola Nota 10. Crédito: Bruno Pimenta

Antes da sala de aula, o trabalho

Essa dificuldade começou muito antes das canções. Natural de Capistrano, no Ceará, Francisco da Silva Costa não sabe dizer exatamente quando deixou a escola, mas lembra por quê. Ainda jovem, precisou trabalhar com o pai na roça, e os estudos ficaram pelo caminho. “Eu e meu irmão saímos para trabalhar. Os mais novos estudaram mais, mas nós paramos”, conta.

O tempo passou, e a escola foi se afastando da rotina até desaparecer completamente. A vontade de aprender, porém, continuou ali, mesmo sem espaço entre o trabalho, os dias corridos e a vida já acostumada à ausência dos cadernos.

Durante muito tempo, voltar a estudar parecia uma possibilidade distante. Foi já no estado de São Paulo, décadas depois de deixar a escola no interior do Ceará, que Francisco voltou a entrar em uma sala de aula. O sentimento, porém, não foi de estranhamento. “Foi a mesma vontade que eu sentia quando era criança”, resume

Desde então, Francisco não faltou a nenhuma aula. Aos poucos, aquilo que parecia simples para outras pessoas começou a ganhar outro significado no cotidiano. Ler placas na rua, reconhecer caminhos, entender palavras que antes passavam despercebidas. “Antes eu não entendia. Agora eu leio, mesmo que devagar”, diz.

A mudança mais profunda apareceu justamente onde ele carregava mais insegurança: na escrita. Durante anos, escrever significava hesitar diante das palavras, desconfiar das letras, voltar atrás. Hoje, as dúvidas ainda existem, mas já não interrompem tudo o que ele quer dizer. “Hoje eu tenho mais certeza das palavras. Antes eu ficava pensando muito, agora já sei melhor as letras.”

A diferença aparece até no tempo. Se antes um louvor podia levar horas para ser registrado, agora as palavras começam a encontrar o papel com menos medo. “Se eu for fazer um louvor agora, eu escrevo mais rápido”, conta.

Mais do que aprender a ler e escrever, Francisco diz ter recuperado uma parte da vida que ficou interrompida no passado. “A tristeza que eu carregava acabou. Agora eu estou feliz.”

"A tristeza que eu carregava acabou. Agora eu estou feliz.”

Quando o aprendizado vira possibilidade

Hoje, Francisco já conta com seis composições colocadas no papel. Entre elas, uma das primeiras resume o sentido desse percurso. “Deixa Jesus te tocar, porque quando Ele toca, transforma a vida da gente”. Um sonho? Cantar uma de suas composições em um programa de TV.

Ele também já iniciou a preparação para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), no nível fundamental, e pretende continuar avançando. “Quero ler bem, escrever bem. Vou melhorar mais ainda. O que eu não aprendi antes, eu vou aprender agora”, garante.

Mais do que voltar à escola, Francisco retomou algo que havia ficado em suspensão por décadas. Hoje, consegue colocar no papel aquilo que, por muito tempo, existiu apenas na memória. E, se antes suas palavras precisavam ser guardadas para não se perder, agora podem ser escritas. Ao passar do pensamento para o papel, deixam de depender apenas da lembrança para existir.

“Quero ler bem, escrever bem. Vou melhorar mais ainda. O que eu não aprendi antes, eu vou aprender agora”