
O que é uma smartcidade? A ideia pode evocar a tecnologia dos filmes de ficção científica, com grandes quantidade de dados captados e processados por sensores, câmeras e computação em nuvem. Hoje, sabe-se que os pilares de um projeto inteligente estão muito mais ligados a conectividade, sustentabilidade e mobilidade. Ou seja, um conceito mais humanizado, que busca um morar coletivo, com conexões reais e legados sustentáveis para as cidades e comunidades onde são implantados. A MRV&CO vem acompanhando atentamente essas transformações e coloca em prática no bairro Cidade Sete Sois da MRV, presente em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Para falar sobre o assunto de forma mais profunda e cuidadosa, organizamos um papo entre a arquiteta Camila Fiuza, diretora da área de desenvolvimento imobiliário da MRV, e a urbanista Carol Guimarães, consultora e gestora de projetos graduada em Economia e Ciências Políticas com mestrado em Urbanismo. O melhor dessa troca você confere abaixo:
Camila Fiuza
“Pensamos muito sobre os pilares desse projeto que vai abrigar 11 mil unidades habitacionais e 30 mil pessoas. E chegamos à conclusão que nossa base seria a conexão entre as pessoas. Nada de tecnologia computacional, porque hoje está tudo na mão das pessoas com o celular. O que oferecemos é conexão de verdade, e então criamos espaços para isso acontecer: áreas verdes, para que as famílias daqueles empreendimentos possam se encontrar no fim de semana, praças públicas, com quadras para jovens se conectarem, calçadas largas, ciclovias. A gente elegeu como o principal pilar ter espaços públicos de elos reais.”
Carol Guimarães
“Esse conceito foi sendo mais e mais qualificado, e hoje, vejo que saímos dessa ideia muito tecnológica e entendemos que a tecnologia é um meio para um fim, que é justamente melhorar a qualidade de vida das pessoas. Acredito não existir uma cidade sustentável ou uma cidade inteligente, o que existe são projetos inteligentes e projetos sustentáveis. Acho muito legal, Camila, que a inteligência que vocês estão trazendo pretende aumentar potencialidades deste território. Qualificar essa cidade inteligente para que esse CEP possa fortalecer a sua mobilidade social, a sua saúde, aumentar suas possibilidades. Isso é muito poderoso".
Carol Guimarães
“Camila, queria te ouvir um pouco sobre o pós-ocupação desses condomínios do bairro. A ideia de criar comunidades é muito interessante, mas na prática existem desafios - como por exemplo moradores que antes não pagavam condomínio e, de repente, tem essa despesa extra sem eventualmente ver valor agregado.”
Camila Fiuza
“Como a MRV vai desenvolver esse projeto ao longo de 10 anos, ficamos vivendo juntos, e com isso conseguimos trazer um pouco da nossa intenção. Estamos criando esses espaços de convívios em áreas públicas, então não é que entregamos uma praça vazia, entregamos com equipamentos, com playground... São 26 praças espalhadas nos 1.700.000 m² de área, todas com conexões entre si. Então, a ciclovia sai de uma praça e chega na outra. Criamos diferentes temas para cada uma: a do grupo do basquete, a das famílias com crianças, a praça do pet, entre outras. A gente também iniciou uma associação com a intenção que ela tenha um viés de curadoria para propormos esses momentos de pertencimento à comunidade. Acreditamos de verdade nesse senso de pertencimento e torcemos para que as pessoas valorizem, cuidem e se apropriem desses espaços públicos".
Carol Guimarães
“Acredito ser importante, nesse momento inicial, essa facilitação. Depois realmente a ideia é que as pessoas, os jovens, comecem a se engajar. Porque no final das contas é um resultado de impacto, um ganha-ganha. Tem o empoderamento da comunidade que se sente pertencente, tem o lugar de ócio, de lazer, que todo mundo precisa, e tem também um impacto positivo que a MRV entrega. É um investimento que poderia ser visto como custo, mas é um investimento também para mostrar um projeto de sucesso da empresa".
Camila Fiuza
“O bacana é que a gente não parou no loteamento, no urbanismo, a gente está indo até a incorporação dos empreendimentos que vão estar inseridos em cada lote.”
Carol Guimarães
“É muito legal conseguir acompanhar toda essa completude, especialmente em projetos urbanos. Esse uso misto, onde se tem o comercial e o habitacional é valioso, pois você ganha em qualidade de vida, especialmente falando de mulheres que têm mil funções e podem trabalhar e voltar sem longos trajetos. Isso gera renda.”
Camila Fiuza
“A gente pesquisou muita coisa. Na Alemanha tem projetos muito legais e fomos pegando uma característica de cada lugar. Trouxemos um parceiro importante para o projeto, o ICLEI, que é uma organização global comprometida com o desenvolvimento urbano sustentável. Eles trouxeram exemplos, com fotografia e relatórios, e a partir disso fomos construindo em conjunto.”
Carol Guimarães
“São muitos os projetos inspiradores. Paris, por exemplo, está caminhando para criar zonas de 15 minutos, onde a população alcança tudo num raio de 15 minutos. O Rio de Janeiro lançou um projeto de clean air, que basicamente são espaços que tentam diminuir a poluição fomentando a mobilidade ativa e o transporte público. Singapura também é um lugar que trabalha muito com dados referentes a resíduos e tráfego. Um exemplo que ninguém vê como sendo uma tecnologia de inteligência é, por exemplo, cidades que têm passe livre. Porque? O IBGE mostra que pessoas de baixa renda usam 20/30% da sua renda em transporte. Com uma iniciativa como essas, as pessoas de baixa renda usam mais transporte público, diminui-se as emissões e ainda sobra dinheiro para movimentar a economia, ir a outros lugares. Cria-se uma política pública interessante que tem fortes impactos em outras áreas. Isso é uma cidade inteligente.”
Camila Fiuza
“A ideia é cada vez mais construirmos, todos, uma cidade melhor e São Paulo tem uma lei muito boa, com diretrizes claras, feita por pessoas que entendem muito do que estão fazendo. Não sei se você também tem essa impressão, Carolina."
Carol Guimarães
“Concordo 100% que São Paulo se destaca, o desafio é realmente fazer isso ser refletido, né? Existe a expressão em inglês ‘not in my backyard’, que significa ‘não no meu quintal’ e que é usada para descrever pessoas que se opõem a projetos que serão realizados em suas comunidades. Temos que nos inspirar nas grandes mudanças, como a Paulista Aberta. Foi uma superconquista da sociedade civil, já que falar de carro em São Paulo é bem complicado porque todo mundo quer o direito à sua vaga, o direito ao seu carro e tal. Projetos assim podem nos inspirar e realmente mostrar a mudança.”
Camila Fiuza
“Na Cidade Sete Sois fizemos, por exemplo, um jardim de chuva numa das nossas praças. E temos uma ação que chamamos de gentilezas urbanas, que são gentilezas que nos propomos a fazer sempre onde atuamos. Seja num projeto grande, como a Cidade Sete Sóis, ou um condomínio menor. A meta é melhorar um pouco aquele espaço onde a gente está sendo inserido.”
Camila Fiuza
“A gente fez bastante pesquisa, contratou escritórios especializados cada um no seu tema, trouxemos equipes especialistas para nos ajudar na construção desse projeto. O que a gente vê é que um projeto desses faz diferença na vida das pessoas. Não à toa, escolhemos essa história do convívio, da conexão entre pessoas, com o verde, as praças, o parque linear que tem aqui no projeto. “
Carol Guimarães
“Essa possibilidade de conexão, de trabalhar perto de onde mora, de ter acesso à saúde, educação, lazer, lojas comerciais é ótimo porque você fomenta uma cidade que você não precisa de um carro, você pode ir de bicicleta, a pé. No balanço geral, você consegue se exercitar, tem menos poluição, menos espaço para vagas e espaço para áreas verdes, enfim, cria-se efeitos virtuosos. É sobre isso uma cidade inteligente.”