
Entre a rotina de acompanhar a mãe com Alzheimer, Renata Bernardo encontrou no programa “Acolher” o suporte necessário para estar presente onde sua família mais precisa.
Quase todas as tardes, Dona Elisa, mãe de Renata Bernardo Silva, quer ir embora para casa. Fala dos filhos, pergunta pelos irmãos e revisita tarefas de um tempo que continua vivo em sua memória. Mas Dona Elisa já está em casa.
O tempo, para quem convive com Alzheimer, deixa de obedecer ao calendário. Passado e presente se misturam, sem aviso, dentro da mesma rotina. A mãe volta para lembranças da juventude e da infância, como se estivesse sempre em outro momento da vida.
Por muitos anos, Renata reconheceu na Dona Elisa uma força constante. Uma mulher ativa, cuidadosa, exigente consigo mesma e com todos ao redor. Daquelas que mantinham a casa em ordem, preparavam as refeições da família e encontravam energia para dar conta de tudo.
Foi por isso que os primeiros esquecimentos chamaram atenção.
Aos poucos, vieram as falhas de memória: nomes esquecidos, compromissos confundidos, perguntas repetidas. Dona Elisa já percebia que algo estava diferente e carregava um medo que vinha de uma experiência anterior: ela havia acompanhado de perto a trajetória da própria mãe, diagnosticada com Alzheimer anos antes.
Quando o diagnóstico chegou, há seis anos, a notícia teve o peso de uma confirmação que ninguém queria ouvir. Foi um soco no estômago para Renata, que já conhecia o alcance da doença dentro da própria história familiar.
Hoje, aos 75 anos, a mãe convive com os impactos do Alzheimer, enquanto o pai, Jesus, de 83, divide com a filha a rotina de cuidados.

Renata Bernardo e seus pais.
Crédito: acervo pessoal
Entre trabalho e cuidado
Nos últimos anos, Renata viu o Alzheimer avançar de forma silenciosa, mas constante. Depois dos esquecimentos, vieram a irritação, as crises de tristeza, as alucinações e a desorientação. Em alguns momentos, a mãe confunde o marido com o próprio pai, chama familiares pelos nomes de pessoas que já partiram e acredita estar em outra fase da vida.
Atividades simples passaram a exigir acompanhamento constante. Cozinhar, aquecer alimentos ou apenas circular pela casa deixaram de ser tarefas seguras. E, diante disso, conciliar trabalho e cuidado poderia se tornar uma tarefa impossível.
Foi nesse contexto que o programa Acolher, iniciativa da MRV&CO que oferece uma rotina de trabalho mais flexível para colaboradores que acompanham familiares em situações de saúde que demandam atenção constante, passou a fazer parte da rotina de Renata, analista contábil da companhia.
Ao buscar entender se o Alzheimer poderia ser contemplado pela iniciativa, Renata encontrou uma resposta que, para ela, veio carregada de acolhimento e empatia. A demanda foi analisada e incorporada ao programa, tornando-a uma das primeiras colaboradoras beneficiadas pela frente voltada à doença.
Assim, pela primeira vez, a rotina que vinha sendo atravessada por urgências e adaptações passou a contar com um suporte institucional mais próximo da sua realidade.
O movimento veio como um alívio em meio ao acúmulo de responsabilidades. A possibilidade de contar com a empresa e com a liderança direta, sempre que necessário, permitiu reorganizar o cotidiano sem romper o vínculo com o trabalho.
Então, com uma rotina de trabalho mais flexível, a analista passou a acompanhar de perto as necessidades da mãe, sem abrir mão da carreira. Mais do que uma adequação de jornada, o apoio permitiu que Renata estivesse presente onde sua família mais precisava.
Uma presença que atravessa o cuidado
Morando no andar superior da residência dos pais, Renata passou a acompanhar a mãe de perto, entre reuniões e atividades do trabalho. O dia a dia se organiza entre telas, deslocamentos curtos pela casa e pequenos cuidados que passaram a fazer parte da vida da família.
Em alguns momentos, ela chama a mãe para ficar ao seu lado enquanto trabalha. Em outros, apenas desce as escadas para verificar se está tudo bem.
A presença não se organiza como inversão de papéis. Para Renata, é apenas outra forma de estar junto. Sua mãe fazia tudo sozinha. Hoje precisa de apoio. Então, a filha vai acompanhando, amparando e cuidando.
Mas, para além da rotina, há o desgaste emocional. A sensação de acompanhar, dia após dia, a transformação de alguém que sempre foi referência de força e proteção. É uma mistura de sentimentos: culpa, falta de paciência, arrependimento e tristeza. Aos poucos, conta Renata, vai deixando de reconhecer aquela pessoa que sempre cuidou de você.
É um processo que exige paciência, adaptação e presença constante. Ainda assim, alguns gestos resistem ao avanço da doença. À noite, quando se despede da mãe, Renata às vezes escuta frases que atravessam a confusão da memória e resgatam quem ela sempre foi. “Dorme com Deus, um beijo nas crianças”, diz a Dona Elisa.
São momentos breves, mas suficientes para emocionar. Porque, mesmo quando as lembranças desaparecem, algumas formas de amor encontram caminhos para permanecer.