cultura maker

Cultura maker: moldando as cidades com as próprias mãos

Autonomia, criatividade, empoderamento, transformação. Como a cultura maker está impactando as cidades por meio do urbanismo DIY.

Um grupo de pessoas pintam faixas nas ruas. Outros criam jardins. Há quem dê novo visual com pinturas e os que revitalizam equipamentos das cidades. Todos eles de forma autônoma, literalmente, com as próprias mãos, como manda a definição de um bom fazedor. Essa "mão na massa" é o que define a cultura maker, que chegou de vez às cidades.

Em Toronto, o movimento Toronto Urban Repair Squad realizou tarefas para melhorar a vida urbana. Em cidades como Nova Iorque, Chicago, Londres, Guadalajara, Vancouver, Sydney, Tóquio e México, grupos e indivíduos compartilham do mesmo propósito: realizar intervenções destinadas a aprimorar o cenário urbano.

Alguns deles dedicam seus esforços à criação de jardins "guerrilheiros", enquanto outros substituem a paisagem saturada de publicidade comercial por expressões artísticas. Além disso, há aqueles que se envolveram na construção de bancos públicos, na revitalização de calçadas negligenciadas e na criação de parques de patinação e skate para a comunidade. A essência subjacente a todos esses esforços pode ser resumida em uma ideia simples, mas poderosa: "se algo é necessário e o governo não age, faça você mesmo, ou como diz a expressão em inglês cuja siglas ficaram famosas, do it yourself - DIY"

Urbanismo DIY

Por trás dessas ações está uma manifestação do desejo das pessoas de moldar ativamente o ambiente urbano de acordo com suas necessidades e desejos. As intervenções urbanas espontâneas raramente seguem um plano diretor preestabelecido, mas desempenham um papel essencial ao injetar uma dose de imaginação e criatividade no ambiente urbano. Além disso, proporcionam aos habitantes e transeuntes a oportunidade não apenas de conceber mentalmente um futuro alternativo para a cidade, mas também de experimentá-lo de forma tangível.

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Foto: L'Odyssée Belle/Unsplash

Os autores do livro Tactical Urbanism, Mike Lydon e Anthony Garcia, destacam a capacidade única das intervenções urbanas não planejadas de estimular a imaginação coletiva e promover a experimentação criativa nas cidades. Ao contrário das abordagens tradicionais de planejamento urbano, que muitas vezes seguem procedimentos burocráticos e estruturas rígidas, as intervenções provenientes da cultura maker emergem organicamente, muitas vezes impulsionadas pela comunidade local ou por indivíduos apaixonados.

Para os autores, a capacidade de experimentar ativamente essas mudanças no ambiente urbano é fundamental, pois permite que os cidadãos vivenciem em primeira mão as possibilidades de um espaço revitalizado e, por meio dessa experiência concreta, desenvolvam um senso mais profundo de conexão, pertencimento e propriedade em relação à cidade. Experiências que inspiram o engajamento cívico contínuo e a promoção de soluções urbanas mais inclusivas e sustentáveis.

Além de melhorarem a cidade, são ações que reafirmam o direito das pessoas à ela, convidando todos a participarem ativamente na criação e na transformação do espaço urbano em algo que verdadeiramente reflita a identidade e os valores das comunidades.

Cultura maker, o conceito

A cultura "faça você mesmo" experimentou um grande aumento na popularidade na década passada. Tendo como principal propósito incentivar as pessoas a se tornarem autossuficientes na construção, reparo, fabricação e manutenção de objetos utilizando suas próprias habilidades e mãos, a cultura maker ganhou destaque, sobretudo, com o lançamento da revista americana Make e a realização da Maker Faire, um evento que se espalhou por diversas cidades ao redor do mundo.

grafite em muro

Nesse contexto, o urbanismo ao estilo maker é uma manifestação desse direito, afinal, quando os cidadãos se engajam em intervenções urbanas não planejadas estão exercendo sua liberdade de transformar a cidade de acordo com suas visões e aspirações. De acordo com o geógrafo urbano, Kurt Iveson, o urbanismo DIY representa um questionamento à autoridade tradicional e pode levar ao surgimento de novas formas de autoridade baseadas na igualdade entre os habitantes e no direito à cidade.

No entanto, é importante reconhecer que a cultura maker nas cidades não está isenta de desafios e riscos. É fundamental que as intervenções não beneficiem apenas alguns indivíduos em detrimento do bem coletivo. Além disso, as ações DIY não devem comprometer estratégias de planejamento urbano de longo prazo em prol de soluções imediatas de curto prazo. É igualmente necessário que a sustentabilidade seja um elemento central, garantindo que as mudanças urbanas sejam feitas considerando seus impactos ambientais e futuras gerações.

Sustentabilidade

O combate ao desperdício, o reaproveitamento de materiais e a educação ambiental são pilares da cultura maker cuja ênfase está na produção personalizada e artesanal, prevendo:

  • Uso responsável dos bens: os makers valorizam a qualidade e a durabilidade de produtos, optando por materiais de alta qualidade e métodos de construção sólidos. Isso contrasta com a cultura do consumo descartável, onde produtos são frequentemente projetados para durar pouco tempo, contribuindo para o aumento de resíduos.

  • Reuso dos recursos: Muitos projetos e intervenções nas cidades envolvem o reaproveitamento de itens, contribuindo para circularidade do planeta. Por exemplo, praças com bancos de pallets, criados a partir de materiais recicláveis ou rejeitados.

  • Tecnologias verdes: muitos makers exploram tecnologias verdes, como energia solar, energia eólica e impressão 3D usando materiais ecológicos. Isso permite a criação de soluções sustentáveis para desafios urbanos e ambientais.

Esses três elementos interagem de maneira complementar, formando um ciclo virtuoso de produção e consumo mais consciente e responsável. Por essa perspectiva, a cultura maker também pode ser considerada uma força impulsionadora na busca por soluções viáveis que equilibram o progresso tecnológico e a responsabilidade ambiental.